Chave

Ele levou a chave
E seu coração
E ela foi até um chaveiro
Queria uma chave nova
Mas na realidade
Ela queria um coração novo
E explicou para o chaveiro
Queria algo inquebrável
Que não se perdesse
Que não fosse substituído
Repetiu as instruções para si mesma
Era assim que agora queria seu coração
O chaveiro fez a chave
Ela voltou para a casa
Pensou se seria assim para sempre
Viveria com um coração inquebrável
E uma chave nova
A chave não funcionou
Ela tinha feito a cópia da chave antiga
Do apartamento antigo
Do amor antigo
E ela ficou do lado de fora
Com sua chave antiga
E seu coração quebrado

Refazendo conversas

Eu refaço conversas mentalmente. Não são todas que eu refaço. Uma porque seria impossível fazer isso, já que às vezes uma conversa se enrosca com outra, que completa a outra e que fica assim tudo meio misturado e embaralhado.
Mas algumas conversas, ficam pairando ali em cima das outras. E eu vou refazendo. Diálogo por diálogo. Respostas por resposta. É tipo um jogo. Um quebra cabeça, que eu posso mudar as peças e fazer novos encaixes, mas utilizando as mesmas imagens.
Vou desconstruindo, vou reconstruindo. Frase por frase. Até que na minha cabeça o diálogo fica perfeito. Sempre o perfeito é na minha fala. Nunca na da outra pessoa. A frase da outra pessoa fica intacta.
E vai batendo a insegurança. O pensamento de: Poderia ter falado aquilo. Ou deveria ter escrito assim.
E quando a insegurança vai aumentando, eu tento mudar de conversa. Como se as conversas fossem um cd e eu pudesse trocar de faixa.
Mas não consigo. Até a conversa ficar com as minhas respostas perfeitas, ela não vai embora da minha mente.
E eu fico nesse repeat de refazer conversa, diálogos e palavras.