Lavanda

Estava atrasado para o trabalho. Entrou no metrô e foi levado até a plataforma de embarque, involuntariamente pela multidão. Não entrou no primeiro, nem se quisesse, não caberia nem um pensamento lá dentro.
Pensou que seria ótimo deixar os pensamentos dentro do vagão e vê-los ir embora. E continuou parado na plataforma, olhando as pessoas entrarem e saírem.
Encostou na parede porque não aguentava mais tanta trombada. Sentiu que estava incomodado. Sempre a sensação era de que ele incomodava as pessoas, agora ele vive numa situação inversa, as pessoas que o incomodava.

Um trem passou, e outro, e outro. E ele continuou parado. A multidão foi diminuindo, o que ele achou ótimo, já que queria observar as pessoas. E entender o que as fazia pegar o trem.
Queria uma aventura, era isso? Se perguntou.  Mas pra começar uma aventura, era só entrar no trem.
Uma voz o chamou e ele saiu daquele transe maluco. Uma jovem, com uma trança no cabelo e um chinelinho de hippie. Aqueles feitos por pessoas que tecnicamente largaram tudo para viver da arte. Isso era mentira, ele sabia. Já que uma vez viajou e viu a transformação de uma hippie. De noite ela era toda “natureba” no modo de se vestir e vendia bijuteria na praia. E na manhã seguinte ele a viu entrando na padaria com roupa de marca, banho tomado e pagando a conta com um cartão de débito. Ele por uns segundos percebeu que tinha ignorado a menina. Mas ela ficou parada ao seu lado esperando uma reação. São 9h15 ele respondeu.

Outro trem chegou, ela continuou parada. Ele percebeu que ela estava esperando ele se movimentar. Então ele forçou um sorriso e disse: – Pode ir, eu não vou nesse.
Ela se acomodou na parede, sorriu naturalmente e disse: – Eu também não.
Ele não estava afim de papo, mas ela tinha cheiro de lavanda. Esse cheiro o intrigava, na onda de perfumes chiques, como uma pessoa podia simplesmente cheirar lavanda. E ficaram em silêncio por vários minutos. E o mais incrível é que aquele silêncio não o incomodava e parecia que a ela também não. Os pensamentos loucos já não estavam mais em sua cabeça. Ele só conseguia pensar na palavra lavanda. E depois na trança e depois no chinelo. Quando acordou novamente de outro transe, percebeu que estava encarando a menina de uma forma estranha. Esperou que ela saísse correndo, mas pelo contrário, ela sorriu. Ele tentou pensar em algo para puxar papo. As amenidades do dia: Tempo, São Paulo, Novela. Achou que tudo seria irrelevante.

Então soltou a palavra que estava na sua cabeça: Lavanda. Ela sorriu e confirmou que era o perfume que estava usando. E foi assim que começaram uma conversa sobre: flores! Nem ele sabia que entendia tanto de flores. E no meio da conversa ela soltou, estou com sede de café. Uma sede específica, ele sorriu. Ele não bebia café, mas confirmou que seria uma boa.

Então outro trem chegou e ela entrou primeiro e ficou parada na porta esperando a vez dele. Ele deu um passo à frente, hesitante. O sinal sonoro de fechamento das portas ecoou pela plataforma. E ele deu outro passo. Quando já estava próximo de perder novamente o trem, ele correu e conseguiu entrar. A porta machucou seu braço. Ela sorriu e passou a mão no local que a porta o acertou. Ele não conseguia se mover. Ela então sentou e ele percebeu que o local que ela o tocou agora também cheirava lavanda. Ele sentou-se ao seu lado e se apresentou. Ela em resposta disse:

– Prazer me chamo Jasmim.

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Um comentário sobre “Lavanda

sou toda ouvidos!!!

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