Amanhã

Ela fechou o livro com um sorriso no rosto. A madrugada a envolvia. Ele assistiu a cena deitado. Ela deitou e se achochegou no peito nu dele.

– Por que você deixa a parte mais interessante do livro para amanhã?

– Porque eu gosto de ficar pensando no que vai acontecer.

– E se não houver amanhã?

Ela se acochegou mais para perto. Sentiu o cheiro dele. Pensou um pouco e respondeu:

– Sempre haverá amanhã.

Bananeira

lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?

Ele plantou bananeira no primeiro encontro.
Ela foi de bicicleta.
Ele gostava de suco de fruta
Ela sempre pedia açaí
Ele pregava o amor livre
Ela não sabia bem o que queria
Ele viajou de bike de São Paulo até Minas
Ela só tinha viajado de bike até o trabalho
Ele não acreditava no governo
Ela queria acreditar nas histórias felizes
Ele já tinha vivido um montão de histórias de amor
Ela estava apenas começando nessa jornada
Ele tinha barba, depois só bigode
Ela achava graça nos bigodes estranhos dele
Ele tinha o melhor abraço
Ela tinha a melhor risada
Ele falava manso
Ela quase efusiva
Ele tinha uma cachorra que se chamava Tobias
Ela queria ter um cachorro
Ele curtia passar horas observando a natureza
Ela adorava ficar deitada com ele na grama de uma praça qualquer
Ele parecia um sonhador o tempo todo
Ela estava aprendendo a sonhar
Ele achava formas nas estampas do vestido dela e tirava foto
Ela gostava do cheiro dele depois de pedalar na chuva
Ele vivia a vida de uma forma apaixonante
E ela se apaixonou

 

 

 

 

Meditando em você

Estou aprendendo a meditar. Inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira. Tento focar na respiração. As pessoas dizem que pensam em diversas coisas. Eu penso em você. Você entra no meio da inspiração sem ser convidado, e eu tento te libertar na expiração. É esse o meu exercício. Inspiro, você está lá. Expiro, tento te soltar. Faz meses que não nos falamos, e você ainda está presente. Eu estou quase colocando o seu nome no lugar de meditação. Se alguém me perguntar o que eu fiz essa manhã… eu respondo:

– Fiz 10 min de você.

Podia responder

Sua mensagem me deixou com raiva.
Aquele sentimento de raiva que poucas pessoas conseguem me proporcionar.
E ela me afetou de uma forma que eu não imaginava que seria assim quando você voltasse a falar comigo.
Eu podia deletar sua mensagem.
Eu podia responder da forma mais grosseira possível.
Mandar você se fuder.
Foi o que eu pensei no primeiro momento.
Depois pensei no meu coração partido.
E pensei em você. No seu jeito. No seu olhar. No seu comportamento. Nas suas atitudes. No seu jogo.
E lembrei de tudo.
Lembrei de como eu era tudo, menos eu, perto de você.
Adquiria outra personalidade.
Lembrei de como as nossas mensagens mudaram.
De como todas elas continham insultos disfarçados em piadas.
E de como eu já não conseguia mais falar de tudo com você, sem ser criticada.
Lembrei de todas as vezes que você me fez me sentir pequena e insignificante para o mundo.
Lembrei de como você me magoava com observações desnecessárias sobre algo e como eu respondia sempre no bom humor.
E pensei… olhei a mensagem várias vezes.
Depois de mais de dois meses sem notícias suas, a mensagem que você me manda é uma mensagem me subestimando.
Li… reli… pensei… e fiz o esforço de lembrar tudo isso.
De lembrar como você começou a deixar de ser importante pra mim.
De como sua ausência foi ficando cada vez mais aceitável.
De como eu comecei a parar de me sentir tão perdida nos meus sentimentos.
Podia responder.
Podia te xingar.
Mandar um áudio falando: foda-se!
Dar chilique… explicar que eu não sou idiota. Que eu entendi perfeitamente o conteúdo da sua mensagem.
E depois eu pensei, pra quê?
Você não se importa comigo.
Então decidi te entregar meu silêncio como resposta.

Diálogos Aleatórios – Amor Comunitário

– Muito legal vocês. A galera toda aqui é legal. Sabe o que a gente devia fazer, marcar outro rolê. Pode ser um lance fechado, tipo Harmony.

– Ãh? tipo o site?

– Hein?

– O site eHarmony, sabe… é tipo um Par Perfeito.

– hahaha Não! Harmony tipo motel mesmo, dá pra fechar uma festa e tal.

– Eita! Tipo tudo junto e misturado, né?

#medooooooo

Pronto Falei

A gente compartilhava coisas bobinhas do dia. Você me contava detalhes do seu dia, e eu do  meu.

Isso foi ano passado, no decorrer do ano inteiro.

Mas no final do ano algo mudou, e o compartilhamento do dia parou. Do seu lado, eu ainda continuei, com a esperança de você continuar.

O fato é que eu ainda gostaria de compartilhar as minhas amenidades do dia.

E abro sua janelinha várias vezes ao dia para escrever coisas como:

•Uma borboleta passava pela ciclovia de Pinheiros e que ela não usava capacete.

•Tomei um guaraná que se chama Cruzeiro.

•Que eu odeio a revista Marie Claire e suas histórias absurdas.

Mas não envio… escrevo mentalmente agora. Algo mudou. E eu não me sinto mais segura em mandar.

E aí eu guardo pra mim, penso em você e depois penso se você está bem.

Queria ir até sua casa, levar um açaí, fazer carinho no cachorro mais simpático do mundo e falar que vai ficar tudo bem.

Mas me sinto idiota só de escrever esse desabafo/texto.

No momento o que eu faço todo dia é o desapego de você. Estou aprendendo. Cada mensagem que eu desapego, eu acho que vai ficando mais fácil. Mas depois fica difícil e eu quero mandar tudo de uma vez.

E assinar com: #pronto falei

Faixa Bônus:

A Juliana Cunha do blog Nonada fez um texto lindo sobre mais ou menos isso que que falei, vou roubar pegar emprestado um trecho:

Por muitos meses, fiz uma espécie de “live-tweet” desses pequenos não-acontecimentos para um amigo muito distante que me devolvia com as notícias de um front semelhante, envolvendo personagens que eu poderia descrever com cores ainda mais vivas do que os que me cercam. Depois as coisas azedaram entre nós e tudo que me acontecia, — que não me acontecia —, os vizinhos, as visitas, foi assumindo um tom encardido de desimportância. Desde então me pergunto o que fazer, se tento achar outro interlocutor para essas histórias, se paro de nota-las e deixo a vida ser sem relevos de narrativa. A estratégia atual é não fazer porcaria alguma.