Brinco

Eu perdi um dos meus brincos naquele dia do karaokê.
Foi uma noite tão legal, como todas naquele karaokê estranho, quente e lotado.
Mas hoje ao acordar, peguei minha caixinha com meus brincos, e estava aquele único brinco, sem o par.
Lembrei de quando eu o perdi. Do seu abraço me envolvendo, e quando eu saí dele, senti que tinha perdido o brinco.
Não sei por qual razão o guardei, talvez como lembrança, talvez para me lembrar que desde o começo da nossa brincadeira, eu sabia que ia terminar como o brinco, sozinha.

Puteiro

– Estou com fome, vou embora para casa jantar.

– Quer comer um churrasco grátis?

– Churrasco grátis, numa quinta-feira, às 23h?

– É, conheço um lugar que hoje você janta churrasco de graça.

– É uma festa?

– Não, é um lugar que mulheres não pagam a entrada. Você não vai pagar para entrar, nem para comer. Só não sei se você vai topar ir nesse lugar.

– O que tem o lugar?

– Nada demais. Para mim é um lugar como qualquer outro que você vai para comer.

– Tipo um restaurante

– Tipo um puteiro

Tudo transborda

Eu tive um sonho bom. Sonhei com meu irmão mais engraçado e maluco. Sonhei que a gente se encontrava numa rua qualquer e sentados na calçada a gente conversava coisas sobre a vida.
Logo depois eu parei de sonhar e acordei me sentindo perdida. Saí da cama no quarto escuro, batendo nas coisas. Derrubei o notebook. Tropecei na beirada da cama. Fui tateando no escuro, até encontrar a janela e abri-la para entrar um pouco de luz.
O meu quarto que é tão familiar, que eu sei andar perfeitamente no escuro total. Do nada virou um quarto completamente estranho.
Acendi a luz para ver o estrago. Pensei em ver se o note tinha quebrado no dia seguinte. E voltei a deitar. Não sonhei dessa vez. Acordei antes do despertador. Olhei o céu pela janela aberta. Estava já mudando do escuro para o claro. E fui despertando e sentindo uma emoção de tristeza me invadir. Estava tão feliz nos dias anteriores e hoje a tristeza me pegou ali deitada na cama. Não era bem vinda, mas não se importou. Sentou ali do meu lado da cama e ficou. E eu fiquei deitada fitando o céu. Tentando afastar os pensamentos ruins e tristes da cabeça. Olhei no relógio, ainda 5h40 da manhã. E a tristeza se alojando no meu peito, de um forma que respirar já não estava legal.
Decidi tomar um banho. Banho, água… vai me fazer bem. E fui ignorando a tristeza. Na real eu não estava sentindo nada no banho. Estava neutra. Até voltar novamente para o quarto e começar a chorar. Desabei. Um choro que eu não conseguia segurar e nem controlar.
Fiquei alguns minutos focando na respiração, até essa onda de choro passar.
Mas não passou. Preciso identificar esse sentimento. Se é um choro de alívio ou de sofrimento. Só sei que ele não para. Estou trabalhando e do nada lágrimas escorrem.
Agora começo a entender que nada é permanente. Que as coisas vem e vão. Passam.
O que fica são os momentos do agora. Mas o agora é um aperto no peito. Daqueles que você não sabe se fica ou saí correndo. Daqueles que te deixa inquieta, mas ao mesmo tempo paralisada.
E eu tento repetir várias vezes, o que eu sempre falo para as pessoas que estão passando por alguma tristeza: Que tudo vai ficar bem.

Chave

Ele levou a chave
E seu coração
E ela foi até um chaveiro
Queria uma chave nova
Mas na realidade
Ela queria um coração novo
E explicou para o chaveiro
Queria algo inquebrável
Que não se perdesse
Que não fosse substituído
Repetiu as instruções para si mesma
Era assim que agora queria seu coração
O chaveiro fez a chave
Ela voltou para a casa
Pensou se seria assim para sempre
Viveria com um coração inquebrável
E uma chave nova
A chave não funcionou
Ela tinha feito a cópia da chave antiga
Do apartamento antigo
Do amor antigo
E ela ficou do lado de fora
Com sua chave antiga
E seu coração quebrado

Refazendo conversas

Eu refaço conversas mentalmente. Não são todas que eu refaço. Uma porque seria impossível fazer isso, já que às vezes uma conversa se enrosca com outra, que completa a outra e que fica assim tudo meio misturado e embaralhado.
Mas algumas conversas, ficam pairando ali em cima das outras. E eu vou refazendo. Diálogo por diálogo. Respostas por resposta. É tipo um jogo. Um quebra cabeça, que eu posso mudar as peças e fazer novos encaixes, mas utilizando as mesmas imagens.
Vou desconstruindo, vou reconstruindo. Frase por frase. Até que na minha cabeça o diálogo fica perfeito. Sempre o perfeito é na minha fala. Nunca na da outra pessoa. A frase da outra pessoa fica intacta.
E vai batendo a insegurança. O pensamento de: Poderia ter falado aquilo. Ou deveria ter escrito assim.
E quando a insegurança vai aumentando, eu tento mudar de conversa. Como se as conversas fossem um cd e eu pudesse trocar de faixa.
Mas não consigo. Até a conversa ficar com as minhas respostas perfeitas, ela não vai embora da minha mente.
E eu fico nesse repeat de refazer conversa, diálogos e palavras.

Querer

Ela queria
Depois não queria mais
E nesse querer e não querer ela se perdeu
E meio perdida
Entre o pensar e querer
Entre o querer não pensar
Entre o pensar do não querer
Pensava que um braço de distância era o correto
Mas o que era o certo?
E o errado?
Querer estava errado?
Ou estava certo?
Ela queria
Mas depois não queria mais
E ela se distanciou do querer
Para não poder

Amanhã

Ela fechou o livro com um sorriso no rosto. A madrugada a envolvia. Ele assistiu a cena deitado. Ela deitou e se achochegou no peito nu dele.

– Por que você deixa a parte mais interessante do livro para amanhã?

– Porque eu gosto de ficar pensando no que vai acontecer.

– E se não houver amanhã?

Ela se acochegou mais para perto. Sentiu o cheiro dele. Pensou um pouco e respondeu:

– Sempre haverá amanhã.

Bananeira

lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?

Ele plantou bananeira no primeiro encontro.
Ela foi de bicicleta.
Ele gostava de suco de fruta
Ela sempre pedia açaí
Ele pregava o amor livre
Ela não sabia bem o que queria
Ele viajou de bike de São Paulo até Minas
Ela só tinha viajado de bike até o trabalho
Ele não acreditava no governo
Ela queria acreditar nas histórias felizes
Ele já tinha vivido um montão de histórias de amor
Ela estava apenas começando nessa jornada
Ele tinha barba, depois só bigode
Ela achava graça nos bigodes estranhos dele
Ele tinha o melhor abraço
Ela tinha a melhor risada
Ele falava manso
Ela quase efusiva
Ele tinha uma cachorra que se chamava Tobias
Ela queria ter um cachorro
Ele curtia passar horas observando a natureza
Ela adorava ficar deitada com ele na grama de uma praça qualquer
Ele parecia um sonhador o tempo todo
Ela estava aprendendo a sonhar
Ele achava formas nas estampas do vestido dela e tirava foto
Ela gostava do cheiro dele depois de pedalar na chuva
Ele vivia a vida de uma forma apaixonante
E ela se apaixonou